PAVILHÃO ANYANG – ÁLVARO SIZA COM CARLOS CASTANHEIRA E JUN SUNG KIM ANYANG, COREA DO SUL | 2005 – 2006

PAVILHÃO ANYANG - ÁLVARO SIZA COM CARLOS CASTANHEIRA E JUN SUNG KIM  ANYANG, COREA DO SUL | 2005 - 2006

” Fevereiro de 2005: o convite, urgente e de surpresa. Uma pequena cidade de 300.000 habitantes tinha lançado um projecto de um parque cultural logo à entrada de um parque natural, encastrado entre belas montanhas. Como complemento, mas elemento central, seria necessário um pavilhão multifuncional para tudo e para todos. O nome de Álvaro Siza foi mencionado e o convite veio em pessoa ao Porto.

Março de 2005: a urgência era isso mesmo e logo fui ao local ver, registar, para trazer as bases necessárias para o trabalho de arquitecto, já que o programa era parco: espaço polivalente ou multifuncional, pequeno escritório, talvez para a policia, também este polivalente, e sanitários para os que fazem os percursos do parque e para os que se ficam pela praça ou restaurantes locais.

À chegada o Jun, arquitecto coreano, de estudos no estrangeiro e estágio no Porto, agora radicado em Seoul, amigo de há vinte anos, esperava-me. A amizade e a profissão iriam fazer a necessária ligação. À chegada a urgência é presente, presente a urgência da urgência, porque o país assim é, como o povo e a vida. Há tempo para decidir, após decisão chega a urgência. Há grande euforia no APAP2005 – Anyang Public Art Project 2005. Muitos artistas e alguns arquitectos já confirmaram. Sente-se alguma preocupação, será que tantos convidados de tantas nacionalidades compreenderam a urgência? Com a nossa calma recolhemos elementos, fazemos fotos, solicitamos planos de rigor, procuramos documentação, procuramos a arquitectura que se fazia, quase toda destruída pelas guerras, a arquitectura que se faz, a de qualidade, procuramos., os amigos ajudam, mostram.

O local é espaço aberto, rasgado na montanha, uma praça por criar. Já há compromissos, talvez se possam coordenar, mesmo eliminar, vamos ver.

De volta ao Porto e ao ocidente tento transmitir a experiência, as vivências, os sabores
e as bases do trabalho. Siza recebe, percebe, pergunta e interpreta como ninguém.
Na primeira sessão de trabalho saem uns esquissos, ainda tímidos, interpretativos.
A segunda sessão, apoiada por maqueta de localização é mais aproximativa, a forma começa a ser isso mesmo e conteúdo na procura do programa. Seguem-se outras sessões, aos sábados e domingos, sobretudo. O ambiente é óptimo. Fazem-se maquetas, aumenta-se a escala, os esquissos obrigam a alterações nos planos, nas maquetas e nos 3D.

Há que voltar à Coreia e apresentar ao cliente.

Julho 2005: à chegada informam que a apresentação é às dezassete horas. Às dezassete horas inicia-se a reunião: presidente da câmara, os vereadores necessários, os directores e técnicos também, arquitectos locais, convidados. Breve apresentação da obra de Álvaro Siza, apresentação da proposta, alguma tradução, perguntas inteligentes, necessidade de aumentar a quantidade de sanitários, nada que não permita a aprovação formal da proposta, pois somos técnicos e iremos, certamente, realizar as alterações necessárias, solicitadas. Agradecimentos pela qualidade, mas também pela urgência. Há que começar a obra, é necessário construir, é urgente e a neve… Dezanove horas, jantar de confirmação do agrado do projecto e da sua aceitação e aprovação oficial.

De volta, o processo embora idêntico é outro, pois passamos à execução. Adapta-se às pequenas alterações do programa, à forma e a forma ao programa. Os desenhos ganham escala, rigor mas sempre seguindo o esquisso, e o esquisso seguindo o rigor da execução. A obra começa e o desenho continua. A net permite a troca de informação, mas também ver crescer a obra, apesar da distância. Apesar da urgência, o gosto de ver obra a nascer, desburocratizada, dá gosto, até porque a nossa é outra, a realidade.

Novembro de 2005: de volta para a abertura do parque e visita à obra. Volume completo, tosco, com um betão cinza, quase branco de pronto. Adivinha-se a luz. Execução primorosa na urgência. O local foi feito para o volume e o volume sai deste. Do resto da praça pouco foi possível salvar, resta-nos a nossa metade.

O Parque, feira de vaidades, agrada; desagrada, espanta-me a capacidade de realização. Muito pouco está bem, muito tem carácter temporário, até descartável. Ficará o bom, o tempo não perdoará. Discutem-se infra-estruturas, projectos de especialidades, acabamentos, materiais, prepara-se a fase seguinte, a dos prontos. No Porto acompanha-se o projecto de execução, quase em tempo real, com cumplicidade.

Julho de 2006: de volta a surpresa é muita, apesar da troca de fotos. Entrar no espaço acabado é sublime, assim como a luz. Espaço nada estático, quando nos movemos canta, diria Siza. É introverso (ou introvertido) quando tem de o ser, extroverso (ou extrovertido) nas perspectivas, nos percursos, na volumetria da forma e materiais.
Chove, chove, são as monções, dramatiza um pouco, mas está bem, apesar das necessárias correcções, poucas, fundamentais: como se impõe numa obra de Álvaro Siza. E há ainda o exterior.

O cliente, a cidade, respeitosamente solicita e o pavilhão toma o nome de Anyang – Alvaro Siza Hall. Já em uso, está para breve a inauguração.”

Setembro de 2006
C.C. Carlos Castanheira

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